06 agosto 2012

EFEITO DE 12 SEMANAS DE TREINAMENTO COM PESOS SOBRE A FORÇA MUSCULAR, COMPOSIÇÃO CORPORAL E TRIGLICÉRIDES EM HOMENS SEDENTÁRIOS


O objetivo do presente estudo foi verificar o efeito de 12 semanas de treinamento com pesos (TP) sobre a força muscular, composição corporal e triglicérides em homens sedentários. Para tanto, 14 homens saudáveis e sedentários foram separados aleatoriamente, de forma balanceada, em grupo experimental (GE = 29 ± 1 anos; 180,0 ± 3,0cm; 80,5 ± 1,8kg) e grupo controle (GC = 27 ± 1 anos; 170,0 ± 2,0cm; 76,2 ± 0,9kg). O GE foi submetido a um protocolo de TP durante 12 semanas, com frequência de três vezes por semana. O programa de TP foi composto por 10 exercícios executados em duas séries de 10-20 repetições. Medidas de massa corporal, estatura, espessura de dobras cutâneas e triglicérides foram realizadas antes e após o período de intervenção. Adicionalmente, o teste de uma repetição máxima (1RM) foi aplicado nos exercícios supino em banco horizontal e mesa extensora, nos período pré, após seis e 12 semanas de acompanhamento. Foram encontradas diferenças significativas (< 0,05) após as 12 semanas de TP apenas no GE para o somatório das dobras cutâneas, ao passo que a massa corporal e os triglicérides não sofreram alterações nesse período. Com relação aos valores de força muscular, identificou-se aumento significativo (< 0,05) no GE em ambos os exercícios entre o primeiro e o segundo teste de 1RM e entre o segundo e o terceiro. Conclui-se, portanto, que 12 semanas de TP foram suficientes para aumentar a força muscular e reduzir o somatório de dobras cutâneas sem, contudo, alterar os valores de triglicérides e massa corporal.
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INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, tem sido observado aumento acentuado no número de adeptos ao treinamento com pesos (TP), bem como no número de publicações investigando os efeitos desse tipo de treinamento sobre os diferentes componentes da aptidão física associada à saúde ou ao desempenho.
Nesse sentido, um dos principais benefícios decorrentes da prática de TP mostrados pela literatura está relacionado com o aumento da força, da resistência muscular e da massa corporal magra(1,2), o que faz com que programas envolvendo esse tipo de treinamento sejam considerados como uma ferramenta bastante interessante a ser adotada por indivíduos de diferentes faixas etárias.
No entanto, diferenças metodológicas observadas em alguns estudos dificultam a determinação da magnitude desses benefícios. Por exemplo, no que diz respeito ao efeito desse modelo de exercício sobre a composição corporal, ainda existem controvérsias, uma vez que alguns pesquisadores advogam que o treinamento predominantemente aeróbio seria o mais adequado, sobretudo quando se objetiva a redução no percentual de gordura corporal(3,4). O TP, por sua vez, caracterizado como atividade de alta intensidade, está intimamente relacionado com ganhos na massa muscular e, por isso, parece acarretar uma redução na gordura corporal, em virtude do aumento no gasto energético(5).
Além disso, mais recentemente, o TP tem se mostrado benéfico no controle de alguns fatores de risco para o desenvolvimento de doenças coronarianas(6). Aparentemente, influências positivas no perfil lipídico e lipoproteico são observadas em decorrência desse tipo de treinamento. Entretanto, isso ainda não está bem estabelecido na literatura, uma vez que muitos programas envolvendo o TP não têm demonstrado alterações nessa variável(4,7,8).
Dessa forma, considerando potenciais lacunas, o objetivo do presente estudo foi verificar o efeito de 12 semanas de TP sobre a força muscular, composição corporal e triglicérides em homens sedentários.
MÉTODOS
Amostra
A amostra foi composta por 14 homens voluntários, aparentemente saudáveis e sedentários pelo menos seis meses antecedentes ao início do experimento. Os indivíduos foram distribuídos igualmente em grupo experimental (GE = 29 ± 1 anos; 180,0 ± 3,0cm; 80,5 ± 3,8kg) e grupo controle (GC = 27 ± 1 anos; 170,0 ± 2,0cm; 79,7 ± 2,4kg). Durante a aplicação do programa de TP, os grupos foram orientados a não realizar qualquer outro exercício físico, na tentativa de o impacto desse programa ser analisado de forma individual.
Como critérios de exclusão foram considerados tabagismo, uso de substâncias ergogênicas, doenças crônicas preexistentes e resposta positiva ao questionário Par-Q. Após receber informação sobre os procedimentos aos quais seriam submetidos, os sujeitos assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido. Os procedimentos adotados neste estudo atenderam às normas da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde para pesquisas em seres humanos, após aprovação do comitê de ética em pesquisa da Universidade Estadual de Londrina (Parecer 265/06).
Medidas antropométricas e composição corporal
Para a determinação da massa corporal e estatura foi utilizada uma balança mecânica acoplada a um estadiômetro (Welmy®). As medidas foram realizadas de acordo com os procedimentos de Gordon et al.(9). A composição corporal foi determinada por meio da técnica de espessura das dobras cutâneas utilizando um compasso Lange, sendo utilizados os pontos anatômicos peitoral, abdominal e coxa, de acordo com o protocolo de Jackson e Pollock(10).
Coleta de sangue
Os triglicérides plasmáticos foram analisados pelo método enzimático colorimétrico, após coleta de sangue de 10-12h em jejum. A fim de evitar interferências no experimento, os sujeitos foram instruídos a manter o mesmo padrão alimentar.
Teste de uma repetição máxima (1RM)
A força muscular foi determinada por meio do teste de 1RM. Os exercícios realizados foram o supino em banco horizontal e extensão de pernas, sendo a ordem de execução aleatória. Para cada exercício, os sujeitos tinham até cinco tentativas para a determinação de 1RM, com intervalo de três a cinco minutos entre as tentativas e os exercícios.
Anteriormente ao início do estudo, foi empregado um protocolo de familiarização ao teste de 1RM, na tentativa de reduzir os efeitos de aprendizagem aos gestos motores. Todos os sujeitos foram testados, em situação semelhante à do protocolo adotado, em três sessões distintas intervaladas por períodos de 48 horas.
Protocolo de treinamento com pesos
O GE realizou um programa de TP, três vezes por semana, durante 12 semanas, sendo que a frequência média dos sujeitos foi de 34 sessões de treinamento.
O programa foi constituído pelos exercícios realizados na seguinte ordem: supino em banco horizontal, extensão de pernas, supino inclinado, puxada no pulley, flexão de pernas, remada, tríceps no pulley, agachamento na máquina, desenvolvimento e rosca direta de bíceps. Esses indivíduos realizaram, inicialmente, duas séries de 15-20 repetições e intensidade determinada subjetivamente próxima à fadiga. A partir da terceira e quarta semana, foram realizadas 10-15 repetições com a mesma intensidade. O ajuste das cargas ocorria quando o sujeito reportava condições de realizar confortavelmente as repetições determinadas. Em todos os casos, o intervalo de recuperação entre as séries e os exercícios foi de 50-180s.
Delineamento do estudo
O estudo teve a duração total de 14 semanas. A primeira semana foi destinada à familiarização ao teste de 1RM, além da realização de anamnese, medidas antropométricas, avaliação da composição corporal e coletas de sangue. A partir da segunda semana, o GE foi submetido a um programa de TP com duração de 12 semanas.
As medidas da primeira semana foram realizadas em dois momentos distintos (M1 = início e M3 = 12 semanas após M1). O teste de 1RM, por sua vez, foi aplicado em três momentos (M1 = início, M2 = seis semanas após M1 e M3 = 12 semanas após M1).
Tratamento estatístico
Os resultados são apresentados em média ± erro padrão. As variáveis foram submetidas ao teste de Shapiro-Wilk para verificar a distribuição dos dados e ao teste de Levene, para investigar a homogeneidade das variâncias. Análise de variância (ANOVA) para medidas repetidas foi utilizada para verificar as possíveis modificações nos valores do teste de 1RM nos diferentes momentos (M1, M2, M3), seguida do teste post-hoc de Tukey. Utilizou-se o teste t de Student para amostras dependentes com o objetivo de comparar os resultados das medidas antropométricas, composição corporal e triglicérides nos momentos M1 e M3. O nível de significância adotado foi de 5% em todas as análises. Os cálculos foram realizados no programa Statistica versão 5.5 (Statsoft, Tulsa, OK, EUA).
 RESULTADOS
A tabela 1 apresenta as características antropométricas de ambos os grupos. Não foram observadas diferenças significativas para a massa corporal em nenhum dos grupos. No entanto, após 12 semanas de intervenção, o GE apresentou redução significativa no ∑DC, enquanto que para o GC houve aumento, apesar de não ser significativo.
Foi observado aumento significativo na força muscular (tabela 2) do M1 para o M2, M2 para M3 e M1 para M3 nos dois exercícios testados apenas no GE. O GC não apresentou modificações significativas na força muscular em nenhum dos momentos do estudo.
Em relação aos triglicérides, não foram identificadas diferenças significativas entre a medida inicial e a realizada no final do treinamento, tanto para o GE (128,9 ± 28,9 vs. 103,1 ± 20,4mg.dL-1) quanto para o GC (116,1 ± 19,2vs. 135,8 ± 27,2mg.dL-1).
 DISCUSSÃO
O presente estudo procurou investigar o efeito de 12 semanas de TP sobre a força muscular, composição corporal e triglicérides em homens sedentários. Os resultados apontaram aumento significativo de 6% na força muscular no exercício supino em banco horizontal e de 20% no exercício de extensão de pernas nas primeiras seis semanas para o GE. Ao final das 12 semanas, o aumento foi ainda maior (10% para supino em banco horizontal e 31% para extensão de pernas). Tais resultados corroboram outros experimentos disponíveis na literatura(1,2,11,12).
Além disso, foi observada redução significativa no somatório de dobras cutâneas após as 12 semanas de intervenção no GE, ao passo que no GC houve aumento. Esses achados também estão de acordo com outros estudos publicados até o momento(5), embora esse ainda seja um ponto conflitante na literatura. Em relação às taxas de triglicérides, não foram encontradas diferenças significativas após o programa de TP. Esses resultados vão ao encontro de outras pesquisas que não apontam modificações significativas nessa variável em decorrência da prática de TP(4,8,13,14).
No entanto, quando se trata de modificações no perfil lipídico como resultado de envolvimento em programas de TP, as informações presentes na literatura ainda não são consistentes. Algumas pesquisas demonstram alterações positivas nos lipídios sanguíneos(15,16), enquanto outras não apresentam efeito significativo(17-19).
LeMura et al.(4) investigaram o efeito de 16 semanas de diferentes modelos de exercício físico (aeróbio, TP e aeróbio mais TP) sobre as modificações no perfil lipídico, aptidão cardiovascular e composição corporal. Verificaram que o exercício predominantemente aeróbio melhora o perfil lipídico, aumenta a aptidão cardiovascular e a composição corporal de mulheres jovens e saudáveis. O TP, por sua vez, apenas induziu aumentos na força muscular, tanto de membros inferiores quanto de membros superiores.
Da mesma forma, Banz et al.(13), ao comparar o impacto do treinamento aeróbio e do TP sobre alguns fatores de risco para o desenvolvimento de doenças coronarianas em homens obesos, não observaram alterações nos valores de triglicérides no grupo que participou do programa de TP.
Fahlman et al.(20), ao examinar as modificações no perfil das lipoproteínas plasmáticas em 45 indivíduos saudáveis, aleatoriamente divididos em grupo treinamento aeróbio, TP e grupo controle, identificaram reduções, contudo, não significativas nos triglicérides tanto dos indivíduos que realizaram TP quanto nos que fizeram treinamento aeróbio, porém, o grupo controle apresentou aumento dos valores. Os autores apontam que as modificações nos níveis de triglicérides podem estar relacionadas com a intensidade do treinamento. Nesse sentido, Elliot et al.(21) investigaram o efeito de oito semanas de TP de baixa intensidade e oito semanas de destreinamento, no perfil lipídico de mulheres saudáveis pós-menopausa. Tanto a intervenção quanto o destreinamento não evidenciaram alterações significativas no perfil lipídico, sugerindo que o TP de baixa intensidade não foi suficiente para proporcionar alterações no perfil lipídico de mulheres com essas características.
Em contrapartida, um estudo publicado recentemente, investigando o efeito do TP sobre o perfil lipídico e a distribuição da gordura corporal em idosos, identificou reduções significativas nas taxas de triglicérides após 12 semanas de intervenção. No entanto, as sessões de treinamento não foram devidamente supervisionadas, o que poderia trazer importantes implicações aos resultados, principalmente por não ser possível determinar a intensidade em que os sujeitos treinaram, o que pode influenciar as modificações na variável em questão(22).
Alguns estudos sugerem que a redução das taxas de triglicérides após um período de prática de TP pode estar relacionada com o aumento de massa muscular induzido por esse tipo de treinamento(23). Todavia, no presente estudo, devido à técnica utilizada para a avaliação da composição corporal, não existem informações referentes à massa muscular dos sujeitos.
Kelley e Kelley(24), em uma revisão com meta-análise, envolvendo 29 ensaios clínicos aleatórios, sugeriram que o TP reduz o colesterol total, a razão CT/HDL-C, não HDL-C (CT – HDL) e as taxas de triglicérides em adultos. Entretanto, essa revisão contradiz os resultados de outras duas revisões que indicaram que o TP proporciona pequena ou nenhuma redução no perfil lipídico ou lipoproteico de adultos(6,25). Tais contradições presentes na literatura acerca da relação TP e taxas de triglicérides podem ser explicadas pelas diferenças na intensidade dos programas adotados, na duração das sessões, na frequência semanal de treino, na duração total do programa, no estado de treinamento ou nos níveis lipídicos pré-treinamento dos sujeitos envolvidos nos experimentos(26).
A literatura indica que o nível inicial dos lipídios séricos influencia os efeitos que a nutrição e a atividade física podem exercer sobre os componentes lipídicos, sendo que indivíduos com níveis lipídicos mais elevados, usualmente, possuem maiores decréscimos por mg/dL(27). Isso pode justificar as modificações não significativas nos triglicérides encontradas no presente estudo, uma vez que os participantes estavam, antes do início do treinamento, com a média dos triglicérides enquadrada em um padrão considerado normal (menor que 150mg/dL).
Vale destacar que alguns estudos podem ter fracassado na tentativa de encontrar modificações das variáveis sanguíneas após um período de intervenção, especialmente pela falta de controle de algumas variáveis como ingestão dietética, o que pode ser considerado, talvez, a maior limitação da presente investigação.
Assim, sugere-se que estudos futuros atentem para esse fato na tentativa de que sejam mais bem compreendidos os reais efeitos desse tipo de treinamento, sobretudo, sobre o perfil lipídico, levando-se em consideração principalmente que a diminuição de triglicérides reduz o risco de doença cardiovascular em 7% nas mulheres e 3% nos homens(28).
 CONCLUSÃO
Com base nos resultados, conclui-se que 12 semanas de TP foram suficientes para aumentar a força muscular e reduzir o somatório de dobras cutâneas sem, contudo, alterar os valores de triglicérides e massa corporal.
Fonte:

Rev Bras Med Esporte vol.16 no.1 Niterói Jan./Feb. 2010

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